Fontes TrueType e OpenType

21 de novembro de 2016 Journal

Vamos falar um pouco sobre formatos de fontes e história?

Geralmente TrueType é visto como um formato Windows desatualizado que deve ser evitado e o OpenType é considerado o formato ideal, atualizado, que supostamente promove a compatibilidade em todas as plataformas.

POR QUE ISSO ACONTECE?

Em 1990 ambos coexistiam, fontes postscript (OpenType) eram usadas para projetos profissionais de design gráfico e impressos, enquanto as fontes Truetype para o resto, que devido a baixa qualidade, causavam problemas e um resultado insatisfatório quando impressas. E daí vem a má reputação. OpenType vs. TrueType

TrueType foi criado pela Apple, no final da década de 80, é um formato de arquivo de fontes escalonáveis e legíveis em todos os tamanhos. Na época, competia com as fontes Postscript Type1 da Adobe – desenvolvidas para impressoras Postscript Tipo 1 -, no entanto, ambos os formatos apresentavam limitações relacionadas a quantidade de informações que podiam ser armazenadas, 256 caracteres.

POR QUE A DENOMINAÇÃO DE “FONTE POSTSCRIPT”?

O nome é devido a linguagem de programação homônima especializada para visualização de informações, QUE POR MEIO DE COMANDOS ESPECÍFICOS PERMITE GERAR DESENHOS DE LETRAS E FIGURAS [GRÁFICOS VETORIAIS] (Wikipédia. Postscript).

Retomando: A quantidade escassa de espaço aliada a necessidade de lidar com diversos idiomas gerava dificuldades, e como a necessidade é a mãe de todas as invenções, a Adobe e Microsoft – que registrou a invenção – num esforço conjunto desenvolveram um formato aperfeiçoado, na verdade, uma extensão do formato TTF, que superou esse problema, o OpenType.

O QUE O OPENTYPE REALMENTE TROUXE DE INOVAÇÃO?

Para iniciar, cito a possibilidade de alocar até 65,535 caracteres( 2^16 ) – ao invés dos 256 iniciais -, e finalmente trabalhar com uma grande diversidade de glifos.

Glifos da letra A em caixa baixa. Retirado de Wikipédia.

Glifos da letra A em caixa baixa. Retirado de Wikipédia.

E isso garante que nós tenhamos caixa baixa e alta, com todos os acentos maravilhosos utilizados na nossa querida língua portuguesa; possamos escrever em diferentes línguas, que sequer utilizam o alfabeto latino; nos possibilita criar expressões matemáticas ou simplesmente inserir smiles. ☺

A fonte Noto Sans CJK JP Regular, é um ótimo exemplo de capacidade explorada ao máximo, são 16Mb com 65530 glifos segundo o InDesign! Uma fonte open source do Google, publicada sob a licença Apache, versão 2.0.

Robert Bringhurst em seu livro “Elementos do Estilo Tipográfico” nos diz que essa quantidade toda de possibilidades serve para redatores, autores, tipógrafos e cidadãos comuns possam soletrar Dvořák, Miłosz, ou citar um verso de Sófocles ou Pushkin, ou até mesmo querer ler seus e-mails em um alfabeto não latino. LASSALA, Gustavo. LOGOBR.

Somando essa possibilidade ao suporte a tratamentos tipográficos complexos, também foi possível incorporar as ligaduras. Um glifo que representa a fusão de dois ou mais caracteres, por exemplo: Na palavra “filho” os glifos “f” e “i” seriam substituídos pelo glifo “fi”, o pingo do “i” é removido e substituído sutilmente pelo terminal em gota do “f”.

Diversas ligaduras. Retirado de: I Love Typography.

Diversas ligaduras. Retirado de: I Love Typography.

E por fim, mas não menos importante, houve melhora na compactação dos arquivos, surgiu a compatibilidade entre plataformas e o hinting.

O Hinting é uma otimização realizada para tela (72-96 DPI), uma programação de instruções de ajuste fino para rasterização de fontes, de maneira que as linhas tornem-se matematicamente ideais para o encaixe no mapeamento de pixels do monitor.

Isso é necessário pois o desenvolvimento de fontes prioriza altas resoluções para impressão, desse modo, as linhas matematicamente perfeitas podem ser distorcidas ou tornarem-se ilegíveis quando convertidas para grupos de pixels.

Contudo, 99% das fontes comerciais não passam por esse processo e não é garantido que resultados sejam perceptíveis. Fontes PostScript e TrueType têm abordagens diferentes, onde respectivamente: um software rasterizador é responsável pelo escalonamento e uma atualização do mesmo melhora a renderização em todas as fontes; e o escalonamento é realizado por instruções de hinting sofisticadas contidas no arquivo da fonte (sem essas informações fontes TrueType não ficam boas na tela) permitindo um controle pixel por pixel.

ENFIM, TTF E OTF?

Uma extensão .ttf indica que é uma fonte TrueType comum ou uma fonte OpenType com contornos Truetype e, uma fonte OpenType com contornos Postscript tem a extensão .otf.

Os contornos (outlines) das fontes são compostos por uma série de pontos e são realizados de maneira diferente nas fontes TrueType e Postscript. Para fazer uma linha reta, você precisa de duas posições, inicial e final, porém, para realizar uma curva, você precisa de alguns pontos entre eles.

Encontrei um artigo exemplificando perfeitamente a diferença e segue abaixo a tradução da parte que nos interessa:

Fig 1a: Uma curva descrita por dois pontos extremos e dois fora da curva. Esta é a bezier quadrática (Quadratic Bezier) ou Contorno Truetype (Truetype outline). Fig 1b: Mesma curva com três nós e seus pontos de controle. Esta é uma bezier cúbica ou Contorno PostScript.

Fig 1a: Uma curva descrita por dois pontos extremos e dois fora da curva. Esta é a bezier quadrática (Quadratic Bezier) ou Contorno Truetype (Truetype outline).
Fig 1b: Mesma curva com três nós e seus pontos de controle.
Esta é uma bezier cúbica ou Contorno PostScript.

Na verdade, beziers quadráticas são um subconjunto de beziers cúbicas, então, qualquer curva TrueType pode ser convertida exatamente para uma Postscript. Vice-versa não é tão simples, e podem ser necessárias várias curvas quadráticas para aproximar-se da bezier cúbica específica.

Fig 2a: Curva circular representada pelo contorno Postscript. Fig 2b: O equivalente no contorno TrueType, requer muito mais pontos e é somente uma aproximação a curva original.

Fig 2a: Curva circular representada pelo contorno Postscript.
Fig 2b: O equivalente no contorno TrueType, requer muito mais pontos e é somente uma aproximação a curva original.

Sendo assim, a conversão de TrueType para Postscript é uma ciência exata (tirando outros fatores como escala e hinting), mas a conversão de Postscript para TrueType é somente uma aproximação. A ironia é que a maioria das fontes TrueType comerciais foram projetadas como curvas Postscript e então convertidas para TrueType.

Porque curvas Postscript são um super conjunto de TrueType, uma quantidade maior de curvas podem ser desenhadas com menos pontos, tornando o desenvolvimento mais fácil. Dessa maneira, a bezier cúbica, com os nós e pontos de controle, é o padrão de desenho de fontes da indústria.

UFA! Terminamos por aqui, espero que você tenha entendido e aprendido mais sobre o assunto. Se você tem algo a adicionar, por favor, deixe nos comentários! 🙂


Referências bibliográficas:

  • Forum High-Logic. Number of glyphs in a font
  • I Love Typography. Decline and Fall of the Ligature.
  • LOGOBR. Recursos Avançados Opentype para Fontes Digitais
  • ROCHA, Claudio. Novo Projeto Tipográfico. São Paulo: Rosari, 2012.
  • SAMARA, Timothy. Guia de Tipografia. Porto Alegre: Bookman, 2011.
  • SuperUser. Difference between OTF (Open Type) or TTF (True Type) font formats?
  • Typography Guru. Opentype Myths Explained
  • Tipógrafos.net. Glossário.
  • Wikipédia. Opentype.
  • Wikipédia. Postscript.
  • Windows. Qual é a diferença entre fontes TrueType, PostScript e OpenType?
  • Typoteque. Font hinting.
  • Microsoft. TrueType fonts
  • Wikipédia. PostScript fonts.
  • CR8 Software Solutions. PostScript, TrueType and OpenType: Curves and Outlines.